Só quem passa por uma perda gestacional sabe o imenso sofrimento que é perder um filho ainda na barriga. É impossível medir o tamanho da dor de uma mãe enlutada.
Na música “Pedaço de Mim”, Chico Buarque aborda justamente a perda de um filho. E estes versos podem perfeitamente representar mulheres que passaram por perda gestacional: “… a saudade é o revés de um parto / A saudade é arrumar o quarto / Do filho que já morreu”.
A perda gestacional não diz respeito “apenas” a um corpo que, de repente, deixou de apresentar sinais vitais, mas a nomes idealizados para o bebê; enxovais preparados com todo o carinho e futuros sonhados e previamente compartilhados.
Se isso aconteceu com você, saiba que eu sinto muito.
Os dias seguintes à perda
O sistema de saúde pode ser muito cruel com mães que perderam seus bebês ainda na barriga.
Mães que passam por perda gestacional relatam que, nos hospitais, são atendidas junto com mães que estão tendo seus filhos e/ou carregando esses recém-nascidos no colo.
E, enquanto sofrem a perda de seus filhos, elas têm de presenciar outras mães recebendo balões de boas-vindas ao bebê que chegou, flores, fora quadrinhos colocados nas portas dos leitos com os nomes dos recém-nascidos. Isso tudo acaba aumentando o sofrimento.
A dor da perda gestacional não segue um padrão linear e pode envolver ansiedade, depressão, alterações no apetite e transtorno de sono.
É comum mães enlutadas tenderem ao isolamento. Mas essa definitivamente não é a melhor opção para atravessar esse momento. O acolhimento médico — e o multidisciplinar — são cruciais para a recuperação da mulher.
O papel da obstetra que cuidava do pré-natal não deve ser apenas o de comunicar o óbito do bebê, mas oferecer a essa mãe (e à respectiva família), acolhimento e escuta, além de tirar todas as dúvidas que surgem nesse momento tão delicado.
É preciso esclarecer quais cuidados a paciente precisa ter para a plena recuperação do trauma físico da perda e também se colocar à disposição para contribuir com o planejamento de uma futura gestação, caso esse seja o desejo daquela mãe.
É preciso abordar também o luto pelo que não foi vivido, que envolve: o parto imaginado, o dia a dia sonhado com a criança e todo um futuro idealizado.
No próximo tópico, amiga leitora, vamos mostrar algumas práticas que podem ajudar no enfrentamento do luto, caso esse seja o seu caso ou o de alguma amiga próxima.
Lidando com a perda gestacional
Algumas práticas podem amenizar a dor do luto pela perda gestacional. Elas não vão trazer a cura para o sofrimento, mas serão capazes de aliviá-lo, ainda que minimamente. Veja a seguir:
Pratique a gentileza com você mesma
É comum mães enlutadas se sentirem completamente dominadas pela imensa dor e solidão da perda do bebê.
Por conta disso, elas acabam deixando de lado o amor-próprio e o autocuidado, pois, na travessia do luto, cuidar de si pode parecer um ato de egoísmo e provocar culpa.
Mas praticar a gentileza consigo mesma não significa negar a memória do bebê nem desfazer o vínculo que foi criado com ele. Ao ser gentil com você mesma, é possível acolher melhor a dor do luto e respeitar o tempo de cada emoção vivenciada.
Algumas maneiras de praticar a gentileza com você mesma nesse momento são:
- Fazer pausas, praticar o silêncio e não se cobrar por produtividade;
- Não ceder à pressão de “ter que ficar bem”;
- Desabafar apenas quando se sentir confortável e não se sentir obrigada a responder a perguntas que ferem;
- Cuidar do corpo com gestos simples, como: comer bem, hidratar-se, dormir bem (na medida do possível), compreendendo que esses cuidados não diminuem o sofrimento, mas sustentarm quem está passando pela dor da perda gestacional.
Não apresse o luto
A duração do luto não acompanha a escala de tempo que usamos para facilitar nossa rotina nem segue um padrão linear.
Há dias em que o luto pode ser mais tranquilo de lidar e, em outros, mais difícil.
O que não se deve fazer é tentar apressar a superação, porque isso pode gerar ansiedade e ainda mais sofrimento.
Não tenha vergonha de pedir ajuda
Nesse momento delicado, é preciso que haja também suporte emocional, e não é vergonha nenhuma recorrer à sua rede de apoio — família e amigos mais próximos.
Caso sinta que está perdendo o controle e não está conseguindo processar a dor, vale também procurar ajuda profissional.
Psicólogos especializados em lidar com o luto certamente serão de grande ajuda, possibilitando um espaço seguro de escuta e acolhimento.
Dê um nome ao seu bebê
Outro ponto importante é dar um nome ao bebê, mesmo que essa escolha não tenha sido feita antes da perda. A iniciativa fortalece o vínculo e a existência da vida que foi interrompida.
Busque nomear seus sentimentos
Nomear sentimentos, como dor, tristeza, luto, desesperança é outra ação importante, pois ajuda a organizar o que está acontecendo por dentro, tornando o enfrentamento da dor menos confuso e menos solitário.
Tente vivenciar cada emoção, inclusive a raiva, o medo e a culpa, sem julgamento. Porque julgar pode torná-las mais pesadas.
Escrever, de preferência à mão, esses sentimentos também pode ajudar bastante a lidar com a perda.
O próprio movimento do manuscrito já contribui com a regulação emocional, ajudando o corpo a se equilibrar enquanto os sentimentos ganham um contorno.
Crie memórias do bebê
Por mais doloroso que possa parecer, criar memórias ajuda no enfrentamento do luto.
Isso porque essas lembranças auxiliam na preservação do vínculo criado com o bebê, ressignificando esse laço e dando mais sentido e menos silenciamento ao luto.
Algumas maneiras de criar essas memórias são:
- Guardar um objeto simbólico da gestação, como um exame ou uma peça do enxoval, por exemplo;
- Fazer um ritual referente a uma data importante da gestação, como o dia do exame positivo da gravidez ou da compra do primeiro sapatinho;
- Plantar uma semente para manter ativo o vínculo com o bebê.
A perda gestacional é um tema bem delicado e, para que seja enfrentada, exige um autocuidado contínuo, além da rede de apoio, como mencionamos anteriormente.
Se isso aconteceu com você e você tem dúvidas sobre como agir agora ou já está até pensando no seu bebê arco-íris, pode contar comigo.
Saiba que a sua saúde e a do seu bebê serão tratadas não só com o máximo profissionalismo, mas também com muito afeto por aqui.
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